Friday, December 25, 2020

Andar na volta

 Andar na volta, no dicionário alentejano, pode significar muita coisa. Vejamos abaixo alguns exemplos.

Tradução de "A minha filha, depois de sair da Escola, não vem logo para casa. Anda aí na volta!": A minha filha, depois de sair da Escola, não vem logo para casa. Vai com as amigas passear, vão ver lojas, experimentar roupas, ver rapazes, vão testar perfumes e maquilhagens em perfumarias, vão para as casas umas das outras, enfim, tudo menos estudar.

Tradução de "quando fizer a volta, passo aqui e trago-lhe a lenha”: De manhã, vou lavrar um terreno lá na Herdade dos Porcos Dourados e quero ver se, antes de almoço, ainda apanho o resto da azeitona do Olival do Zé Panelas. Depois de almoço, tenho que tratar das vacas e das ovelhas do Manel Caruncho e depois de rachar mais uma pouca de lenha, passo aqui no Monte para lhe deixar a encomenda.

Tradução de “O João das Ovelhas não veio esta semana limpar o terreno pois anda na volta”: O João das Ovelhas não veio esta semana limpar o terreno pois só quer é bebedeira. Depois de sair do trabalho, às 17h, encosta-se ao Balcão da Zilda e ali está, a emborcar mines, até que alguém o meta na rua.

Tradução de “O Jaquim Fusíveis ainda não conseguiu vir ver do problema com o curto-circuito da bomba do poço porque anda muito ocupado na volta”: O Jaquim Fusíveis ainda não conseguiu vir ver do problema com o curto-circuito da bomba do poço porque é um aldrabão e apanhou-se com um adiantamento de 30 euros e agora não quer saber desta merda para nada.

Tradução de “O vizinho Zé Tijolos” não lhe acaba a obra porque anda aí na volta”: O vizinho Zé Tijolos” não lhe acaba a obra porque aproveita os tempos livres para estar deitado. Ele passa o tempo deitado, está sempre deitado.

Tradução de “Ele passa o tempo deitado, está sempre deitado.”. Ele não presta para nada.


Thursday, December 24, 2020

Bolota

 A Bolota é a minha cadela. Era super, super fofinha quando a adoptei, ainda não tinha 3 meses. Um tufo de pelo querido, pequenino, curioso, afável, tímido e sereno. Fiquei tão feliz quando a peguei ao colo e a trouxe comigo para casa…

Na quinta em Beja onde a fui buscar, a vasta família da Bolota parecia feliz: os cachorros brincavam ao sol e os mais velhos dormitavam, despreocupados. Chamou-me a atenção um cão preso com uma corrente, ao contrário da restante matilha que deambulava livremente pela propriedade. Questionei o Senhor que me havia oferecido a Bolota do porquê daquele cão estar acorrentado e fiquei a saber que tinha uma esquisita tara que consistia em escavar túneis no terreno, túneis esses que o conduziam a propriedades adjacentes e mote para atacar a criação da vizinhança. Era o pai da Bolota.

Não foi necessário muito tempo para que a Bolota abandonasse de todo aqueles “sinais de fofisse” do dia da adoção. A tranquilidade daquele primeiro dia, eventualmente fruto da timidez com o casal desconhecido que a foi tirar à família, desvaneceu-se totalmente no dia seguinte: a cadela, ou desatava a fugir como uma lebre ou, ao colo, esfuracava as mãos (com os seus afiados e finos dentinhos) de quem a colocava ao colo. Confesso que embater numa roseira brava seria uma bênção comparativamente às dentadinhas de amor que a Bolota afincava na altura.

Rapidamente, a Bolota encontrou em casa a sua total vocação para a arte de triturar e destruir tudo o que lhe aparecesse à frente e tivesse o mínimo de consistência: rodapés, troncos, sapatos, vasos, pratos, talheres, etc.. Até pedras marchavam,  esmagadas por aqueles dentes da Bolota, aparentemente frágeis mas com a consistência de aço.

A Bolota herdou do pai a costela de coveiro. Diariamente, escava túneis no terreno dignos de serem mencionados em revistas de especialidade de engenharia civil. Ainda assim, temos sorte pois a cadela ainda não se apercebeu que pode direcionar aqueles túneis para os terrenos dos vizinhos e, valha-nos Deus, arcarmos com os genuínos prejuízos que adviriam de ter a Bolota em casa alheia.  Nos entretantos, temos que manter alguma cautela em pisar o terreno e evitarmos cair nos fossos que a Bolota faz para se divertir, capazes de nos enterrar até ao pescoço.

A cadela cresceu bastante e está forte, encorpada. Em boa verdade, parece mais um burro. Tem uma cabeça gigante e, em tamanho, quase que me chega à cintura. A força é a de um Panzer; um daqueles mesmo indestrutíveis.

Quando a Bolota veio para nossa casa, aprendeu, em dois ou três dias, a fazer os xixis e cocós na rua. Era um motivo de orgulho para a família e inveja para colegas de trabalho, amigos e vizinhança, detentores de cachorros pequenos. Esta nossa alegria também durou apenas até ao dia da sua esterilização. Após a cirurgia, durante os seus sonos mais pesados, mija em tudo o que considera aceitável e confortável para deitar o seu enorme corpanzil: cama dela, cama dos donos, tapetes, mantas. Mija em tudo. Todos os dias!

Apesar de já estar com dois anos de idade e eu sempre me tenha convencido que aquela inesgotável energia fosse fruto da tenra idade, à data de hoje, nunca consegue manter-se quieta: salta constantemente, arremessando aquelas enormes patorras no peito de quem está presente no seu radar, mordendo ao mesmo tempo tudo o que consegue abocanhar; relógios, pulseias, mãos, braços, malas, telemóveis. Salta e morde, salta e morde, se bem que eu tenha presente que não o faz por maldade e que toda aquela violência natural seja a sua forma de manifestar o amor e alegria para com os seus donos. Fofinha…

A Bolota sempre teve um gigantesco apetite e nunca entendi onde consegue armazenar tanta ração, arroz, massa, carne ou peixe, fruta, legumes, caca de outros cães, caca dela e tudo o que consegue roubar de cima da mesa e/ou dos sacos de compras que acabam de chegar do supermercado. Ainda ontem, engoliu de um só trago o queijo da serra da estrela que tinha sido comprado para a ceia de natal e que a minha mãe, descuidada, deixou em cima da mesa da cozinha. E está sempre faminta, mesmo que tenha engolido a saca de ração de 5kg que conseguiu subtrair de uma das prateleiras da dispensa. E gosta de tudo; até de pedras (já mencionado mais acima).

No início do ano, a minha mãe decidiu comprar algumas galinhas poedeiras e dar assim uso à capoeira lá de casa. A Bolota ficou radiante e aquele espaço passou a ser o seu local preferido do quintal. Foi com enorme alegria que constatámos que conseguia ali passar algum tempo tranquila a olhar para o quotidiano das aves. Um dia, o meu pai, depois de ter limpo a capoeira e de ter dado milho e água à criação, deixou a porta mal fechada e, num espaço de alguns segundos apenas, a Bolota entrou na capoeira e triturou três das seis galinhas da minha mãe. Não triturou as seis pois o meu pai estava apenas a três metros daquele cenário dantesco de vísceras, bicos, cristas, sangue e penas que emergiam dos dentes da Bolota e ainda conseguiu salvar metade da produção dos ovos lá de casa. Depois de ter devorado as três galinhas ao final da tarde, não rejeitou jantar a habitual malga cheia de ração e ainda fanou metade da dose reservada para a cadela da minha mãe – a Trolly.

No mês passado, a minha mãe apanhou a Bolota a engolir outra galinha e foi a acudiu aos gritos à capoeira, pensando que a Bolota a tinha conseguido transgredir e acabado com a restante criação. Mas não; a porta de ferro “anti-Bolota” escolhida pelo meu pai para a capoeira estava intacta e as galinhas vivas. Rapidamente chegou à conclusão que aquela infortunada galinha havia esvoaçado para cima do muro que separa a nossa casa da do vizinho e assim apanhada pela atenta Bolota. Pensando tratar-se de um caso isolado, deu um ralhete à Bolota e voltou para os seus afazeres.

Esta semana, estava a minha mãe a pendurar a roupa no quintal, quando o vizinho lhe acenou e pediu para lhe falar. Estava muito chateado pois andavam a desaparecer-lhe galinhas gordas que punham ovos todos os dias. Já era a sexta galinha que lhe desaparecia num espaço de uma semana e perguntou à minha mãe se tinha visto alguma delas no nosso quintal. A minha mãe ficou terrificada pois soube exatamente qual havia sido o destino daquelas seis infelizes. Todavia, não se descoseu e aconselhou o vizinho a cortar as asas às aves pois, muito provavelmente, haviam voado para o quintal da vizinha Noélia – do outro lado oposto ao da nossa casa.

Eu questiono-me todos os dias se a Bolota será uma cadela psicologicamente normal. A minha mãe diz que aquele feitio é da raça (rafeiro alentejano) e que não há nada a fazer senão aceitar. O meu marido diz que os cães herdam o feitio do dono, e neste caso a Bolota herdeu o meu (claro) mas eu não acredito nisso. O vizinho do lado diz que a Bolota é o demónio em forma de cão e que, se fosse ele, mandava abater o bicho. 

Eu quero acreditar que a Bolota ainda vai um dia atingir a maturidade e ficar mais calma. 

Wednesday, September 2, 2020

Há trabalhos e trabalhos e prioridades

Ninguém se mexe nesta empresa para fazer ratola.

- Preciso de um técnico para a Alves e Mixordias, Lda. É urgente.O Cliente ameaçou desistir do serviço!

Nada. Zero respostas. Toda a gente a assobiar para lado. Toda a gente ocupada com uma data de merdas.

Passados uns dias...

- Preciso de um Técnico para fazer um serviço no estádio do Dragão! 

Passados uns minutos...

- Posso ser eu?