Thursday, December 24, 2020

Bolota

 A Bolota é a minha cadela. Era super, super fofinha quando a adoptei, ainda não tinha 3 meses. Um tufo de pelo querido, pequenino, curioso, afável, tímido e sereno. Fiquei tão feliz quando a peguei ao colo e a trouxe comigo para casa…

Na quinta em Beja onde a fui buscar, a vasta família da Bolota parecia feliz: os cachorros brincavam ao sol e os mais velhos dormitavam, despreocupados. Chamou-me a atenção um cão preso com uma corrente, ao contrário da restante matilha que deambulava livremente pela propriedade. Questionei o Senhor que me havia oferecido a Bolota do porquê daquele cão estar acorrentado e fiquei a saber que tinha uma esquisita tara que consistia em escavar túneis no terreno, túneis esses que o conduziam a propriedades adjacentes e mote para atacar a criação da vizinhança. Era o pai da Bolota.

Não foi necessário muito tempo para que a Bolota abandonasse de todo aqueles “sinais de fofisse” do dia da adoção. A tranquilidade daquele primeiro dia, eventualmente fruto da timidez com o casal desconhecido que a foi tirar à família, desvaneceu-se totalmente no dia seguinte: a cadela, ou desatava a fugir como uma lebre ou, ao colo, esfuracava as mãos (com os seus afiados e finos dentinhos) de quem a colocava ao colo. Confesso que embater numa roseira brava seria uma bênção comparativamente às dentadinhas de amor que a Bolota afincava na altura.

Rapidamente, a Bolota encontrou em casa a sua total vocação para a arte de triturar e destruir tudo o que lhe aparecesse à frente e tivesse o mínimo de consistência: rodapés, troncos, sapatos, vasos, pratos, talheres, etc.. Até pedras marchavam,  esmagadas por aqueles dentes da Bolota, aparentemente frágeis mas com a consistência de aço.

A Bolota herdou do pai a costela de coveiro. Diariamente, escava túneis no terreno dignos de serem mencionados em revistas de especialidade de engenharia civil. Ainda assim, temos sorte pois a cadela ainda não se apercebeu que pode direcionar aqueles túneis para os terrenos dos vizinhos e, valha-nos Deus, arcarmos com os genuínos prejuízos que adviriam de ter a Bolota em casa alheia.  Nos entretantos, temos que manter alguma cautela em pisar o terreno e evitarmos cair nos fossos que a Bolota faz para se divertir, capazes de nos enterrar até ao pescoço.

A cadela cresceu bastante e está forte, encorpada. Em boa verdade, parece mais um burro. Tem uma cabeça gigante e, em tamanho, quase que me chega à cintura. A força é a de um Panzer; um daqueles mesmo indestrutíveis.

Quando a Bolota veio para nossa casa, aprendeu, em dois ou três dias, a fazer os xixis e cocós na rua. Era um motivo de orgulho para a família e inveja para colegas de trabalho, amigos e vizinhança, detentores de cachorros pequenos. Esta nossa alegria também durou apenas até ao dia da sua esterilização. Após a cirurgia, durante os seus sonos mais pesados, mija em tudo o que considera aceitável e confortável para deitar o seu enorme corpanzil: cama dela, cama dos donos, tapetes, mantas. Mija em tudo. Todos os dias!

Apesar de já estar com dois anos de idade e eu sempre me tenha convencido que aquela inesgotável energia fosse fruto da tenra idade, à data de hoje, nunca consegue manter-se quieta: salta constantemente, arremessando aquelas enormes patorras no peito de quem está presente no seu radar, mordendo ao mesmo tempo tudo o que consegue abocanhar; relógios, pulseias, mãos, braços, malas, telemóveis. Salta e morde, salta e morde, se bem que eu tenha presente que não o faz por maldade e que toda aquela violência natural seja a sua forma de manifestar o amor e alegria para com os seus donos. Fofinha…

A Bolota sempre teve um gigantesco apetite e nunca entendi onde consegue armazenar tanta ração, arroz, massa, carne ou peixe, fruta, legumes, caca de outros cães, caca dela e tudo o que consegue roubar de cima da mesa e/ou dos sacos de compras que acabam de chegar do supermercado. Ainda ontem, engoliu de um só trago o queijo da serra da estrela que tinha sido comprado para a ceia de natal e que a minha mãe, descuidada, deixou em cima da mesa da cozinha. E está sempre faminta, mesmo que tenha engolido a saca de ração de 5kg que conseguiu subtrair de uma das prateleiras da dispensa. E gosta de tudo; até de pedras (já mencionado mais acima).

No início do ano, a minha mãe decidiu comprar algumas galinhas poedeiras e dar assim uso à capoeira lá de casa. A Bolota ficou radiante e aquele espaço passou a ser o seu local preferido do quintal. Foi com enorme alegria que constatámos que conseguia ali passar algum tempo tranquila a olhar para o quotidiano das aves. Um dia, o meu pai, depois de ter limpo a capoeira e de ter dado milho e água à criação, deixou a porta mal fechada e, num espaço de alguns segundos apenas, a Bolota entrou na capoeira e triturou três das seis galinhas da minha mãe. Não triturou as seis pois o meu pai estava apenas a três metros daquele cenário dantesco de vísceras, bicos, cristas, sangue e penas que emergiam dos dentes da Bolota e ainda conseguiu salvar metade da produção dos ovos lá de casa. Depois de ter devorado as três galinhas ao final da tarde, não rejeitou jantar a habitual malga cheia de ração e ainda fanou metade da dose reservada para a cadela da minha mãe – a Trolly.

No mês passado, a minha mãe apanhou a Bolota a engolir outra galinha e foi a acudiu aos gritos à capoeira, pensando que a Bolota a tinha conseguido transgredir e acabado com a restante criação. Mas não; a porta de ferro “anti-Bolota” escolhida pelo meu pai para a capoeira estava intacta e as galinhas vivas. Rapidamente chegou à conclusão que aquela infortunada galinha havia esvoaçado para cima do muro que separa a nossa casa da do vizinho e assim apanhada pela atenta Bolota. Pensando tratar-se de um caso isolado, deu um ralhete à Bolota e voltou para os seus afazeres.

Esta semana, estava a minha mãe a pendurar a roupa no quintal, quando o vizinho lhe acenou e pediu para lhe falar. Estava muito chateado pois andavam a desaparecer-lhe galinhas gordas que punham ovos todos os dias. Já era a sexta galinha que lhe desaparecia num espaço de uma semana e perguntou à minha mãe se tinha visto alguma delas no nosso quintal. A minha mãe ficou terrificada pois soube exatamente qual havia sido o destino daquelas seis infelizes. Todavia, não se descoseu e aconselhou o vizinho a cortar as asas às aves pois, muito provavelmente, haviam voado para o quintal da vizinha Noélia – do outro lado oposto ao da nossa casa.

Eu questiono-me todos os dias se a Bolota será uma cadela psicologicamente normal. A minha mãe diz que aquele feitio é da raça (rafeiro alentejano) e que não há nada a fazer senão aceitar. O meu marido diz que os cães herdam o feitio do dono, e neste caso a Bolota herdeu o meu (claro) mas eu não acredito nisso. O vizinho do lado diz que a Bolota é o demónio em forma de cão e que, se fosse ele, mandava abater o bicho. 

Eu quero acreditar que a Bolota ainda vai um dia atingir a maturidade e ficar mais calma. 

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