A Bolota é a minha cadela.
Era super, super fofinha quando a adoptei, ainda não tinha 3 meses. Um tufo
de pelo querido, pequenino, curioso, afável, tímido e sereno. Fiquei tão feliz
quando a peguei ao colo e a trouxe comigo para casa…
Na quinta em Beja onde a fui
buscar, a vasta família da Bolota parecia feliz: os cachorros brincavam ao sol
e os mais velhos dormitavam, despreocupados. Chamou-me a atenção um cão preso
com uma corrente, ao contrário da restante matilha que deambulava livremente
pela propriedade. Questionei o Senhor que me havia oferecido a Bolota do porquê
daquele cão estar acorrentado e fiquei a saber que tinha uma esquisita tara que
consistia em escavar túneis no terreno, túneis esses que o conduziam a
propriedades adjacentes e mote para atacar a criação da vizinhança. Era o pai
da Bolota.
Não foi necessário muito tempo
para que a Bolota abandonasse de todo aqueles “sinais de fofisse” do dia da adoção.
A tranquilidade daquele primeiro dia, eventualmente fruto da timidez com o casal
desconhecido que a foi tirar à família, desvaneceu-se totalmente no dia
seguinte: a cadela, ou desatava a fugir como uma lebre ou, ao colo, esfuracava
as mãos (com os seus afiados e finos dentinhos) de quem a colocava ao colo. Confesso
que embater numa roseira brava seria uma bênção comparativamente às dentadinhas
de amor que a Bolota afincava na altura.
Rapidamente, a Bolota encontrou em
casa a sua total vocação para a arte de triturar e destruir tudo o que lhe
aparecesse à frente e tivesse o mínimo de consistência: rodapés, troncos,
sapatos, vasos, pratos, talheres, etc.. Até pedras marchavam, esmagadas por aqueles dentes da Bolota,
aparentemente frágeis mas com a consistência de aço.
A Bolota herdou do pai a costela de
coveiro. Diariamente, escava túneis no terreno dignos de serem mencionados em
revistas de especialidade de engenharia civil. Ainda assim, temos sorte pois a
cadela ainda não se apercebeu que pode direcionar aqueles túneis para os terrenos
dos vizinhos e, valha-nos Deus, arcarmos com os genuínos prejuízos que adviriam de
ter a Bolota em casa alheia. Nos
entretantos, temos que manter alguma cautela em pisar o terreno e evitarmos
cair nos fossos que a Bolota faz para se divertir, capazes de nos enterrar até
ao pescoço.
A cadela cresceu bastante e está forte,
encorpada. Em boa verdade, parece mais um burro. Tem uma cabeça gigante e, em
tamanho, quase que me chega à cintura. A força é a de um Panzer; um daqueles
mesmo indestrutíveis.
Quando a Bolota veio para nossa
casa, aprendeu, em dois ou três dias, a fazer os xixis e cocós na rua. Era um motivo
de orgulho para a família e inveja para colegas de trabalho, amigos e vizinhança,
detentores de cachorros pequenos. Esta nossa alegria também durou apenas até ao
dia da sua esterilização. Após a cirurgia, durante os seus sonos mais pesados,
mija em tudo o que considera aceitável e confortável para deitar o seu enorme
corpanzil: cama dela, cama dos donos, tapetes, mantas. Mija em tudo. Todos os dias!
Apesar de já estar com dois anos
de idade e eu sempre me tenha convencido que aquela inesgotável energia fosse fruto
da tenra idade, à data de hoje, nunca consegue manter-se quieta: salta
constantemente, arremessando aquelas enormes patorras no peito de quem está
presente no seu radar, mordendo ao mesmo tempo tudo o que consegue abocanhar;
relógios, pulseias, mãos, braços, malas, telemóveis. Salta e morde, salta e
morde, se bem que eu tenha presente que não o faz por maldade e que toda aquela
violência natural seja a sua forma de manifestar o amor e alegria para com os
seus donos. Fofinha…
A Bolota sempre teve um gigantesco
apetite e nunca entendi onde consegue armazenar tanta ração, arroz, massa, carne
ou peixe, fruta, legumes, caca de outros cães, caca dela e tudo o que consegue roubar de
cima da mesa e/ou dos sacos de compras que acabam de chegar do supermercado.
Ainda ontem, engoliu de um só trago o queijo da serra da estrela que tinha sido
comprado para a ceia de natal e que a minha mãe, descuidada, deixou em cima da mesa
da cozinha. E está sempre faminta, mesmo que tenha engolido a saca de ração de
5kg que conseguiu subtrair de uma das prateleiras da dispensa. E gosta de tudo;
até de pedras (já mencionado mais acima).
No início do ano, a minha mãe decidiu
comprar algumas galinhas poedeiras e dar assim uso à capoeira lá de casa. A Bolota
ficou radiante e aquele espaço passou a ser o seu local preferido do quintal. Foi
com enorme alegria que constatámos que conseguia ali passar algum tempo tranquila
a olhar para o quotidiano das aves. Um dia, o meu pai, depois de ter limpo a capoeira
e de ter dado milho e água à criação, deixou a porta mal fechada e, num espaço de
alguns segundos apenas, a Bolota entrou na capoeira e triturou três das seis
galinhas da minha mãe. Não triturou as seis pois o meu pai estava apenas a três
metros daquele cenário dantesco de vísceras, bicos, cristas, sangue e penas que
emergiam dos dentes da Bolota e ainda conseguiu salvar metade da produção dos
ovos lá de casa. Depois de ter devorado as três galinhas ao final da tarde, não
rejeitou jantar a habitual malga cheia de ração e ainda fanou metade da dose
reservada para a cadela da minha mãe – a Trolly.
No mês passado, a minha mãe apanhou
a Bolota a engolir outra galinha e foi a acudiu aos gritos à capoeira, pensando
que a Bolota a tinha conseguido transgredir e acabado com a restante criação.
Mas não; a porta de ferro “anti-Bolota” escolhida pelo meu pai para a capoeira
estava intacta e as galinhas vivas. Rapidamente chegou à conclusão que aquela
infortunada galinha havia esvoaçado para cima do muro que separa a nossa casa da
do vizinho e assim apanhada pela atenta Bolota. Pensando tratar-se de um caso isolado, deu um
ralhete à Bolota e voltou para os seus afazeres.
Esta semana, estava a minha mãe a
pendurar a roupa no quintal, quando o vizinho lhe acenou e pediu para lhe falar.
Estava muito chateado pois andavam a desaparecer-lhe galinhas gordas que punham
ovos todos os dias. Já era a sexta galinha que lhe desaparecia num espaço de
uma semana e perguntou à minha mãe se tinha visto alguma delas no nosso
quintal. A minha mãe ficou terrificada pois soube exatamente qual havia sido o
destino daquelas seis infelizes. Todavia, não se descoseu e aconselhou o vizinho
a cortar as asas às aves pois, muito provavelmente, haviam voado para o quintal
da vizinha Noélia – do outro lado oposto ao da nossa casa.
Eu questiono-me todos os dias se a Bolota será uma cadela psicologicamente normal. A minha mãe diz que aquele feitio é da raça (rafeiro alentejano) e que não há nada a fazer senão aceitar. O meu marido diz que os cães herdam o feitio do dono, e neste caso a Bolota herdeu o meu (claro) mas eu não acredito nisso. O vizinho do lado diz que a Bolota é o demónio em forma de cão e que, se fosse ele, mandava abater o bicho.
Eu quero acreditar que a Bolota ainda vai um dia atingir a maturidade e ficar mais calma.
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